A Atrofia Muscular Espinhal (AME) é uma doença genética autossômica recessiva grave, com incidência estimada entre 1:6.000 e 1:10.000 nascidos vivos e frequência de portadores heterozigotos de 1 em 40 a 1 em 60 indivíduos. É uma das principais causas genéticas de morte em lactentes e, o diagnóstico precoce e o início rápido do tratamento são fundamentais para melhorar prognóstico e qualidade de vida.
A maioria dos casos (~95%) é causada por deleção homozigótica do éxon 7 do gene SMN1, localizado em 5q13. Essa alteração leva à deficiência da proteína SMN (Survival Motor Neuron), essencial para a integridade dos neurônios motores, com funções na biogênese de snRNPs, processamento de pré-mRNA, transporte axonal de RNA e organização do citoesqueleto neuronal.
Em cerca de 5% dos casos, a AME decorre de outras mutações no SMN1, como mutações de ponto, pequenas deleções/inserções ou variantes intrônicas que afetam o splicing. Nestes casos, o paciente pode ser heterozigoto composto — com uma cópia deletada e outra com mutação de ponto.
O gene SMN2, parálogo do SMN1, também localizado em 5q13, apresenta uma substituição C>T no éxon 7 que provoca sua exclusão em ~90% dos transcritos, gerando proteína truncada e instável. Apenas cerca de 10% da proteína produzida pelo SMN2 é funcional. O número de cópias de SMN2 é um importante modificador fenotípico: menos cópias associam-se a formas mais graves, enquanto mais cópias tendem a produzir quadros mais brandos.
O diagnóstico molecular pode ser realizado a partir da mesma amostra coletada no Teste do Pezinho. A MLPA (Multiplex Ligation-dependent Probe Amplification) é o padrão-ouro para detectar e quantificar cópias de SMN1 e SMN2, mas não detecta mutações de ponto, sendo nestes casos necessário o sequenciamento do SMN1. A qPCR é amplamente utilizada em triagens, sendo de fácil realização e implementação em laboratórios de rotina de biologia molecular.
O desenvolvimento de terapias modificadoras, como nusinersena, onasemnogeno abeparvovec e risdiplam, mudou o curso clínico da AME. Essas terapias são mais eficazes quando iniciadas no período pré-sintomático, reforçando a importância da triagem neonatal.
Em países como EUA, Alemanha, Japão, Bélgica e Austrália, a AME já integra programas de triagem neonatal. No Brasil, a inclusão no Programa Nacional de Triagem Neonatal ainda não é uniforme, mas projetos-piloto em estados como São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal demonstram a viabilidade técnica usando amostras de sangue seco em papel filtro (DBS).